Noite perdida


Na noite incerta, estendemos corpos no chão, o desejo fervendo, arder visceral,
sem freio. 
Nossos corpos se encontram, sobre a
pele, contornos nus se insinuam em
sombras errantes, estremecendo sob a luz difusa de um desejo imenso.

Sentimos a textura da pele em atrito,
mãos exploradoras, curvas sedentas,
contacto vibrante, suspiros dispersos,
amalgamados em gemidos, a dança
instintiva dos corpos sem barreiras, 
numa maré selvagem de prazer crua e
imediata.

Entrelaçamo-nos em espasmos de
euforia, o calor da urgência palpita em
cada toque, a fricção visceral, língua e
lábios, busca e encontro, cada instante, uma explosão, um clímax compartilhado, onde a necessidade se transforma num festim voraz.

A noite é um palco para nossos corpos
audaciosos, a paixão nos devora,
consumindo-nos em chamas. 
Somos seres perdidos e encontrados na mesma voragem, vulneráveis e intensos, entregues ao êxtase, a noite nos molda num desvario coletivo.

Sentimos o prazer como um rito sagrado, em cada gesto, um grito, 
uma promessa, um lembrete cru do que significa realmente existir, onde o prazer e a dor se fundem, se tornam um só, e nos perdemos, intensamente, no calor do chão.

Auschwitz, cinzas do Homem


Um homem caminha por entre sombras,  
com os pés afundados na lama seca,  
respira o ar denso que uma vez foi leve,  
e não sente o peso dos corpos caídos,  
pois aprendeu a calar a voz da alma.  
O suor na testa, mistura-se com o sangue alheio,  
e o olhar turvo encontra o brilho do sol,  
mas não há calor que derreta o gelo do coração.  
O que resta é o vazio disfarçado de dever,  
a fúria contida em ordens cegas,  
e o sopro gélido da indiferença.  
Uma vez humano, agora vestígio de homem,  
ele cumpre a tarefa sem hesitar,  
pois a sombra do poder sussurra-lhe ao ouvido,  
transforma-lhe o espírito em fera adestrada,  
incapaz de reconhecer o rosto no espelho.  
O sangue que pinga das mãos não é seu,  
mas sente-o correr nas veias,  
o pulso ritmado com o grito dos silenciados,  
que ressoa em paredes onde a morte se esconde.  
As estrelas que brilham no céu distante,  
são apagadas pela fumaça das chaminés,  
e ele, cego por dentro, não as vê.  
O cheiro doce da morte impregna os poros,  
mas o nariz acostumou-se ao aroma pútrido,  
enquanto o coração endurece, torna-se pedra.  
O riso de criança que uma vez conheceu,  
é agora lembrança fragmentada,  
perdida na neblina de uma memória esfacelada.  
O que resta é o eco do silêncio,  
a batida surda de um coração que não sente,  
e o peso leve da consciência morta.  
Ali ao lado, em cinzas, jaz a humanidade,  
e ele, sobrevivente de sua própria destruição,  
caminha em círculos, prisioneiro de si mesmo,  
onde o mal disfarçado de ordem,  
consome o que restou da sua alma.  
O corpo, cansado, um dia desmoronará,  
mas a alma, já perdida, não encontrará descanso.

Entre suspiros


Com meu bebé no colo,  
um suspiro suave dança entre nós,  
enquanto o sol derrama sua luz pela janela,  
espalhando dourado pelos cabelos dele,  
pelo meu peito que acolhe.  
Este é o momento em que o mundo  
se reduz ao pulsar delicado,  
ao calor das suas mãos pequeninas,  
dedos que se abrem e fecham,  
como um segredo contado em gestos.  

Na minha pele, sinto o pulsar da vida,  
pequenas batidas, um ritmo que segue,  
sereno, quase mudo, mas tão forte,  
forte como a raiz de uma árvore  
que cresce sem pressa, mas com certeza.  
Ele é um botão, um início,  
uma promessa feita ao futuro  
que guardo junto ao meu peito,  
com todo o cuidado de quem  
acaricia a pétala mais frágil.  

E há uma música que nasce,  
não no silêncio, mas na respiração,  
no ar que entra e sai,  
como um mar que vai e volta,  
e nos carrega em ondas suaves,  
levando-nos para longe de tudo  
que não seja este momento,  
onde o amor flutua entre nós,  
leve como o sopro de uma brisa  
que beija as folhas ao cair da tarde.  

No balanço do meu corpo,  
ele encontra o seu lar,  
no meu olhar, ele descansa,  
e eu vejo nele, tão pequeno,  
um universo inteiro,  
feito de possibilidades,  
de sonhos ainda não sonhados,  
mas que já se entrelaçam  
no ar que compartilhamos,  
numa dança lenta,  
uma melodia feita de nós.  

Com meu bebé no colo,  
o mundo fica mais simples,  
mais certo, mais belo.  
E no sussurro do seu sono,  
eu ouço a promessa de amanhã,  
uma esperança que cresce,  
na doçura do presente,  
na ternura deste instante,  
onde só existimos nós dois,  
e a vida, que começa agora.

A impotência de ser

Na sombra que desce pela madrugada, ela se cala  
Como um véu de nevoeiro sobre a pele rasgada  
Seu dedo se ergue, não para ordenar, mas para implorar  
Que o som, qualquer som, se retire para sempre  
Do espaço onde antes havia vida, havia riso, havia canto  
Mas agora só resta a marca fria de um grito que nunca saiu  
E nos seus olhos há o peso de mil noites insones  
Onde o silêncio é um monstro que devora a alma por dentro  
Uma luz que cega, mas não ilumina  
Que a arrasta para um abismo de pensamentos escuros  
A dor que se esconde nas dobras do silêncio  
Como um segredo enterrado na profundidade da terra  
Onde as palavras se desfazem em cinzas  
E os gestos são correntes que prendem o corpo  
Numa dança macabra com a memória  
As mãos, tremulas, não encontram descanso  
Apenas o frio de uma solidão sem fim  
Que corta como lâminas invisíveis, dia após dia  
E no peito, o coração bate num ritmo descompassado  
Como se quisesse fugir, escapar de um destino cruel  
Mas está preso, amarrado a uma vida de sombras  
Onde o tempo é um inimigo que nunca cessa  
E a esperança, uma flor que murcha sem ter desabrochado  
O peso do silêncio é insuportável, esmagador  
Como se cada segundo fosse uma eternidade  
De olhos fechados, ela vê a escuridão  
Não a escuridão do sono, mas a escuridão da alma  
Onde os pesadelos não têm início nem fim  
São apenas um ciclo infinito de dor e desespero  
E as palavras que ela gostaria de dizer  
Ficam presas na garganta, sufocadas pela angústia  
Porque ela sabe, no fundo, que ninguém as ouviria  
Mesmo que gritasse até os pulmões se despedaçarem  
E então ela se cala, e o mundo se cala com ela  
Num pacto de silêncio e sofrimento  
Onde a única voz é a da dor  
Que ecoa, não no ar, mas nas profundezas do ser  
Uma dor que não tem nome, que não tem fim  
E assim, ela permanece, imutável, no seu silêncio  
Como uma estátua de mármore, fria e inquebrável  
Enquanto o mundo gira, indiferente  
E o silêncio a consome, devagar, sem pressa  
Até que nada mais reste, além da sombra de um sussurro  
Que se perde no vazio da noite.

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*Imagem da campanha da APAV sobre a violência doméstica

A vertigem do vazio


Ela segura em si mesma, uma âncora, ao vazio,  
o grito nasce do ventre, rasga a garganta,  
seu corpo é um mapa de agonia,  
despido, exposto, frágil,  
a pele carrega manchas como sombras de feridas antigas,  
e a dor sobe pelos ossos, afundando-se na carne,  
cada respiração um peso,  
os dedos cravam-se na carne, como quem busca segurar o tempo,  
o grito é silêncio, é ruído, é tudo o que sobrou,  
um lamento que não cessa,  
os olhos fechados, selando a realidade,  
não há consolo no escuro,  
somente o pulsar das veias,  
o sangue que se agita, quente e solitário,  
cada segundo se alonga,  
uma eternidade contida num instante,  
não há alívio na nudez,  
o corpo, uma prisão sem janelas,  
o grito é um trovão,  
a alma contorcida, sem rosto,  
tudo dentro dela implode,  
as memórias fervem, escorrem pela pele,  
mas ela está sozinha,  
nada resta senão a sombra de si mesma,  
e o grito se quebra em mil pedaços,  
espalhados pelo chão frio,  
um corpo em convulsão de vazio,  
as mãos apertam mais forte,  
os dentes rangem,  
ela sente a terra ceder,  
um abismo que se abre aos seus pés,  
e o grito não a salva,  
só a consome,  
e ela desce,  
sem saber se o fim é abaixo ou dentro de si mesma.