A Busca sem Fim


Procuro-me nas palavras,
nas sombras que a vida lança
sobre o meu caminho.
Cada passo que dou
é tanto avanço como recuo,
um espelho onde vejo
não o que sou,
mas o que ainda falta ser.

Nas esquinas da memória,
sou criança,
sou homem,
sou a ideia inacabada
de quem talvez nunca serei.
No tempo que passa,
encontro-me apenas por instantes,
antes de desaparecer de novo,
como uma estrela cadente
que ilumina, mas nunca fica.

A minha identidade não se prende
ao que vejo,
mas ao que sinto
nas margens do meu ser,
onde o silêncio abraça o desejo
de ser mais do que já fui.
E cada dia é uma nova versão
de mim mesmo,
uma reescrita silenciosa
do poema inacabado que sou.

Por vezes, canso-me de procurar,
de seguir esse fio invisível
que me leva a parte incerta.
Mas quando paro,
sinto o vazio crescer,
a ausência de mim mesmo
a gritar dentro do peito.
E assim, volto ao caminho,
não por necessidade,
mas porque a busca
é a única verdade que conheço.

Entre o ser e o não ser,
entre o que deixei de ser
e o que ainda não alcancei,
existe um espaço que é meu,
um vazio cheio de possibilidades,
onde cada ausência
se transforma num novo início.
Afinal, talvez a busca
não seja para me encontrar,
mas para aprender a perder-me,
vez após vez,
até que o perder seja, enfim,
a minha forma de ser.

O Feminino Dentro de Mim

(Inspirado na poeta Maria Teresa Horta)

Há um corpo que arde em mim,
feito de pele e desejo,
um fogo que cresce nos dedos
quando percorro o silêncio do meu corpo.
Ela, que me habita,
vem como uma tempestade,
suave e selvagem,
como o toque que se prolonga
para lá do limite dos sentidos.

O feminino que me chama
não pede licença,
não se contém,
é a fome que desperta
no sopro morno da madrugada.
Ela faz-se sentir na carne,
na curva do meu próprio corpo,
que se molda à vontade
como quem se rende a si mesmo
sem nunca perder o poder.

Ela toca-me
como se o mundo fosse nada
— e tudo.
Na profundidade do seu olhar,
vejo a mulher que sou,
nua e inteira,
sem o peso do que os outros esperam,
apenas o que quero ser.

Cada suspiro seu
é um eco no meu peito,
onde a força de viver se mistura
com o prazer de sentir.
Há uma suavidade selvagem
no seu toque,
uma força que me dobra,
mas nunca me parte.
Ela vive no meu ventre,
nas coxas que tremem,
nas mãos que pedem,
na alma que exige ser livre.

O feminino dentro de mim
é um grito abafado —
e ainda assim,
é um grito que se faz ouvir.
Ela é tanto o desejo quanto a calma,
o toque ardente
e a brisa que refresca.
Eu sou o seu templo,
o seu altar de silêncio,
onde os segredos são ditos
sem palavras.

E quando me entrego a ela,
sou a mulher que me tornei,
e a que sempre fui —
completamente dona
do meu corpo
e do meu ser.

Mas eu gosto desta terra

Nós somos feios, pequenos, estúpidos,
mas eu gosto desta terra,
onde a vida se esconde sob o vinho selvagem da primavera,
onde a noite guarda a escuridão como um segredo antigo.

Tanto a vida quanto a tristeza se entrelaçam,
como um vento fresco que acaricia a alma,
e, ainda assim, eu gosto desta terra,
onde as estrelas gloriosas brilham ao redor de algum lar.

Mesmo pequenos, sentimos o peso da grandeza
que habita nas sombras e nos silêncios,
porque, apesar de tudo, há algo de belo
nas imperfeições que carregamos,
nesta terra que nos acolhe.

Antes do Sussurro


Às vezes olho e já sei.
Não preciso de falar, nem de me explicar,
só sinto o que passa no ar entre nós.
O silêncio não me pesa, é um abraço.
Talvez tu nem saibas, mas também respondes.

O teu olhar fica ali, suspenso,
e é como se tudo estivesse dito.
Não há dúvida, não há espaço entre a tua respiração
e o meu pensamento que corre.

A minha boca não se abre,
não por medo, mas por saber
que qualquer palavra seria menos do que este instante.
As tuas mãos não se mexem,
mas há um querer nas tuas pupilas,
um acordo invisível que assinamos com o piscar.

Fico aqui, assim, sabendo sem saber,
vendo sem precisar ver mais.

Vestígios Invisíveis


Eu guardo mais do que devo,
os dias acumulam-se em gavetas que não abro,
os rostos passam, ficam nas margens da pele,
as palavras caem de mim sem aviso
e eu seguro algumas, as que doem menos,
enquanto o tempo me escapa,
não consigo entender o porquê de tanto vazio,
mas continuo a encher bolsos com sorrisos
e fotografias de momentos que já não sinto.
Ando pelas ruas sem destino,
não há mapa que me salve de mim mesmo,
tudo desliza, perde forma,
eu já não sei o que conta,
mas agarro o riso, o toque, a respiração.
É o que sobra quando o silêncio vem,
não há muito para dizer sobre o que vai embora,
só que as memórias pesam mais que o corpo
e o resto já não importa.