"Vazio Oculto"


Minto porque respiro,
mas respiro mal,
com um peito vazio,
de um ar falso.

A pele veste máscaras,
despindo-me de mim,
com dedos que tremem
ao tocar verdades.

Digo-me sincero
quando não me ouço.
A voz entala-se,
grita muda na garganta.

Quem sou na sombra
quando a luz me olha?
Quero fugir do espelho
mas ele abraça-me.
Sou o reflexo falso.

Debaixo da pele


Depois de me oferecer inteiro
como um rio que transborda
a sua margem ao toque do teu olhar,
restaram-me os fragmentos –
pequenos cristais que rasgam
o silêncio entre a tua ausência
e a minha sede.

Depois de desfiar as horas
como quem desfaz um rosário de culpas
para justificar o abismo,
aprendi que o amor
não morre;
estilhaça-se.
Parte-se em gritos mudos
e espalha-se nas sombras
que habitam os cantos do meu corpo.

O calor do teu abraço,
que um dia foi porto,
agora é um eco
guardado nas ruínas da minha pele,
onde ainda tremem versos,
delírios e lamentos,
entretecidos com o teu nome
num fio de desejo eterno.

Depois de tudo,
só restam as cambrias –
esse fundo abissal da alma
onde guardo os pedaços de nós,
e o sal, o sal amargo
que escorre das feridas
que me ensinaram a amar-te
mesmo na distância.

Roxo é para vestir

Stop the Purple: 
Roxo é para vestir, não para marcar!

As portas fecham outra vez.
A pele grita sem aviso.
Quem ousa abrir a boca?
Os dias cortam como vidro.

A cadeira cai no chão.
O barulho cala o ar.
Os olhos ardem de vergonha.
A dor instala a rotina.

Mas há mãos que falam.
E vozes rompem o vazio.
A pele não é papel.
Não se rasga nem queima.

Viver não é segredo.
Os muros não sufocam mais.
As marcas não são destino.
O roxo veste liberdade.

Os gritos caem ao pó.
Nenhum silêncio é eterno.
A dor não governa corpos.
Somos mais que medo.

Roxo é pele viva.
Roxo não é prisão.

Espelho e Mar

Olho-me no espelho,
não pela vaidade,
mas pela fome de me saber.
Ali, entre reflexos tortos,
há um mar que me olha de volta,
com olhos de sal e memória.

Já fui espuma, já fui rochedo,
já me afoguei nas correntes que criei.
Agora, sou carne que tenta entender
a vastidão de si mesma,
como se pudesse conter o oceano
num gole de ar.

Dizem que o espelho mente,
mas quem mente sou eu,
quando finjo que não vejo
os sismos dentro de mim.
As falhas, as marés,
os gritos que se quebram
nas praias do peito.

Hoje, despir-me é um ato de coragem.
Não da roupa, mas das máscaras
que escondem o que é bruto, o que dói.
Hoje, deixo que o mar invada o espelho
e me leve,
até que eu seja apenas
verdade.

Sombras Contidas


Inquietação que me escapa entre os dedos,
que insiste em ficar quando a quero fora,
como uma sombra entranhada na pele.
E tento encontrar-lhe a voz,
mas o som das lágrimas corta,
desfaz o fio, embarga a palavra.

É um sofrer mudo,
um querer gritar sem fôlego,
como se todo o peso da existência
se encolhesse no peito,
num espaço exato
onde a dor adormece e desperta.

Tento decifrar-me,
ser poeta da minha própria dor,
mas o coração escorre pelo rosto,
num choro que nada diz,
que tudo cala,
num ciclo interminável
de silêncios molhados.

Inquietação que sim,
que quer e não diz,
que fica por dentro,
como uma fera contida,
um rio represado,
esperando apenas
o momento de se perder
em qualquer mar.

E quando penso em libertá-la,
ela enrola-se mais fundo,
feito um nó de raízes escuras
que abraçam o que sou
e o que evito ser.
É uma fome que não sei saciar,
um apelo que nunca encontra eco,
um desejo que pulsa e fraqueja,
meio desfeito, meio grito.

Há um abismo entre o que sinto
e o que o mundo entende,
uma linguagem sem palavras,
um idioma de sombras e espinhos
que os outros não veem.
E tento conter, engolir o peso,
mas ele cresce, teimoso,
como se meu corpo fosse o solo
onde florescem dores antigas,
as que jamais despontam,
mas sempre ficam.

E sigo, nessa guerra surda,
entre a vontade de explodir
e o medo do vazio que virá,
a quietude insuportável do depois,
onde só resta o eco,
a memória de uma dor
que já não sei se era minha,
ou se me habitava
como uma antiga promessa,
como um fado que aceitei carregar.

Carrego-a comigo,
feito peso nas costas,
que curva a espinha e cala o peito,
um pacto silencioso com o invisível,
com o que nunca foi dito,
com o que guardo no olhar vazio.
É uma pele que não me largo,
um espectro de mim mesmo
que caminha ao meu lado,
em silêncio, mas tão presente,
como se fosse, também, meu.

Há noites em que quase grito,
e paro, porque sei:
ninguém entenderia esse som,
esse vácuo de esperança e exílio,
essa ferida sem nome,
essa constante ausência,
essa saudade de mim mesmo
que nunca se acaba.

E a inquietação, que sim,
fica aqui, calada,
em cada pulsar de sangue,
em cada suspiro suspenso,
na espera de um dia, talvez,
encontrar a paz de um abraço interno,
ou o descanso, enfim,
no eco mais puro do silêncio.