Estou aqui


Fala comigo, meu amor,  
quero ouvir as ondas que escondes,  
o murmúrio das tuas noites caladas,  
onde o silêncio e a lua se abraçam.  

Deixa-me tocar as tuas sombras,  
as que dançam nas margens da tua alma,  
diz-me dos teus medos, teus abismos,  
tudo o que guardas como segredo.  

Sou um porto para as tuas marés,  
um rio onde podes desaguar,  
traz o teu fardo, teus sonhos esquecidos,  
compartilha o que te pesa e o que flutua.  

Seja a dor ou o riso, eu ouço,  
tu és o som que eu procuro,  
as palavras que nunca me disseste,  
no teu olhar perdido em estrelas.  

Fala, meu amor, eu te espero,  
sou a melodia que te acolhe.

De coração ao alto


Caminho, sempre,  
Com o peito erguido,  
Como quem carrega sonhos nas pontas dos dedos,  
E os deixa flutuar para além do céu,  
Onde o horizonte se perde em promessas,  
Que só o vento sabe sussurrar.

O sol desenha sombras nos meus passos,  
E cada curva da estrada é um suspiro,  
Uma prece ao desconhecido,  
Que me abraça em seu silêncio,  
Enquanto sigo,  
Sigo como quem dança na chuva,  
Na espera do arco-íris que ainda não vi,  
Mas sinto,  
Sinto nas veias,  
Como uma melodia que ainda não nasceu,  
Mas já me embala o coração,  
Neste caminho,  
Onde cada passo é um verso inacabado.

Aprisionado


Queria apenas poder querer
Que a vida fosse vida
E eu nunca a tivesse provado 
Que a noite iluminasse o día 
E eu não conhecesse o sol 
Que a areia beijasse o mar 
E meus lábios fossem nuvens 
Que a chuva caísse no céu 
E eu me afogasse no deserto 

 
Que os ríos nascessem no mar 
E eu vivesse em Plutão 
Que o vento norte soprasse de sul 
Que a morte revivesse a vida 
E eu estivesse de costas
E eu morasse a leste
Que o gelo derretesse a lava 
E eu fosse um fóssil
Que o amor iluminasse o mundo
E eu não estivesse lá


Que o ser derrotasse o ter
E eu nunca o sentisse
E eu conhecesse apenas o vazio 
Que o desespero vencesse a tristeza
Que as lágrimas fossem de açúcar
E eu desconhecesse o sabor 
Que o abraço nunca abrisse mão 
E meu corpo fosse fumo


Que o brilho do teu olhar fosse eterno
E eu nascesse cego
Que a bondade mandasse no mundo 
E meu coração fosse de chumbo
Que o fim fosse o princípio
E eu vivesse sempre no meio 
Que o nada fosse mais que o tudo 
E a liberdade prendendo-me
me fizesse livre.

Espelho d'água


Quando atento no olhar da loucura,  
no espelho d'água, vejo  
o rosto desfeito pela corrente,  
e sinto um desapego  
que me esvaece em gotas de dúvida.  

O meu refletido é um jogo de sombras,  
uma dança turva na superfície,  
e cada ondulação é uma história  
que se dissolve antes de ser contada,  
uma mentira que se desmancha na bruma.  

E neste estado de dispersão,  
onde o tempo é um vazio de silêncios,  
me pergunto se sou eu ou a névoa,  
se o que vejo é real ou apenas um conto  
de um ser desfeito na correnteza do ser.  

A água é um mistério líquido,  
um labirinto de olhos sem fundo,  
e eu, neste jogo de luz e sombra,  
sou um fragmento que se perde,  
buscando, um reflexo que me complete.

Minha tempestade


Esta minha loucura que vos afugenta,  
é o reflexo de um abismo sem fundo  
onde me perco,  
onde me procuro e me encontro,  
mas logo me dissolvo nas sombras.  

E se me escondo nas palavras,  
é porque o silêncio me fere  
com a lâmina fria da indiferença,  
e a solidão me envolve  
como um manto pesado demais para despir.  

Mas eu, no meio deste caos,  
sou feito de fragmentos,  
de pedaços de luz e escuridão,  
e cada parte grita por redenção,  
mesmo que o vosso olhar se desvie de mim.  

E, entre um passo e outro,  
sou o eco de um sussurro perdido,  
uma chama que arde e não apaga,  
na esperança de que, um dia,  
alguém veja além da minha tempestade.