Febre na Alma


Eu sou só noite,
tenho medo do escuro.
A febre arde dentro,
grita como fome escondida.

Oiço o choro abafado,
no canto mais profundo,
onde não chega luz,
nem o cheiro de colo.

Quero mãos quentes,
quero um abraço húmido,
mas o calor queima
como fogueira no peito.

Por que o silêncio fala?
Por que o medo ri?
Há uma sombra gigante
no espelho da alma.

Eu corro sem pés,
mas nunca chego.

No Café dos Sotaques


"Ó meu amigo, cá da ilha, já viste o mar hoje?"
pergunta o homem do Funchal, enrolando o "r",
como quem rola um peixe espada na boca.
Do canto, o açoriano ri:
"Mar? Isto é baía, homem! Vê lá se sabes falar direito!"
E cada vogal sua arrasta o vento,
como se trouxesse baleias nos bolsos.

"Calai-bos, que 'inda bos dou um tabef!"
rosna o minhoto, em vozes altas e ãos enfáticos,
"Que eu sou homem do Norte, da raiz, do chão'nhe!"
E bate com o punho na mesa,
"Mas que confusão'nhe aqui há! E que barulhão'nhe!"

"Ólhó linguarejar! Quem vos entende?"
troça um das Beiras, língua sibilante,
cortando o ar como guincho de vento serrano.
"E os cês de vocês, hein? São moles de mais!"
E um "sss" desliza por entre dentes de frio.

"Então e o Alentejo? Já chegaram os calmos?"
pergunta o algarvio, a rir com malícia,
"Ou ficaram na planície, em almofadas de trigo?"
"Eh pá, não gozes!" responde o alentejano,
sua fala molhada, a pingar azeite,
"Que a gente fala devagar, mas pensa mais fundo.
Vai-te lá embora e aluga um almanxar."

E os algarvios, ao fundo, a falar baixo:
"Almancil, Aljezur, Alcoutim – já tens a lista?"
E o mar dentro das palavras deles é quente,
areia que abana, desliza, dança.

"Bah, ó malta, acalmem a guelra!"
diz o minhoto, a rir agora,
"Nem todos temos as vossas manias! Mas ei,
que lindo é este país – tudo em bersões!"
"Bersões não!" grita o homem da Madeira,
"Variedades! Que os nomes importam, caramba!"
E, do outro lado, o açoriano responde:
"Isso mesmo, hom’! Na nossa língua, cada ilha é um tom!"

A risada parte, quebra-se em ecos.
"Portugal é isto," diz o das Beiras,
"Um puzzle de falares, mas encaixamos no fim."
E o Alentejano, calado até agora, responde:
"Encaixamos sim, mas sem pressas. Tudo tem seu tempo."
E o algarvio ri: "Só se fores tu. Eu já cá estou!"

E, no meio do café, levantam os copos,
mistura de vozes, sons e fados que rasgam a tarde.
"Saúde!" dizem todos, e cada sotaque brilha,
como luzes a dançar no rio.
Porque neste pequeno café português,
todas as línguas são uma,
e o riso é sempre maior que a diferença.

"Caminho"

mote: "A simplicidade representa o último degrau da sabedoria" - Arthur Schopenhauer


Na quietude, encontro a verdade,
Em gestos simples, a claridade.
Na humildade, a sabedoria é constante.

Olhando o mundo com olhos serenos,
Nas pequenas coisas, vejo o pleno.
O último degrau da vida, sinto vibrante.

A simplicidade é a estrada da luz,
Nela, descubro o divino que conduz.

Pirimaflor

Pirimá era um pirilampo mágico.
Após muitas aventuras e desventuras, se fez luz-da-noite, dádiva de uma flor, que seu corpo luminoso mas cansado recebeu, em seu cálice de amor doce.
Nasceu um farol na noite escura – Pirimá-Flor.

Cavaleiro Monge

ponto de luz

"Vazio Oculto"


Minto porque respiro,
mas respiro mal,
com um peito vazio,
de um ar falso.

A pele veste máscaras,
despindo-me de mim,
com dedos que tremem
ao tocar verdades.

Digo-me sincero
quando não me ouço.
A voz entala-se,
grita muda na garganta.

Quem sou na sombra
quando a luz me olha?
Quero fugir do espelho
mas ele abraça-me.
Sou o reflexo falso.