Vermelho Silencioso


Pára, não me vês aqui,  
no chão, coberta de vermelho,  
uma tinta quente,  
que escorre das feridas  
que tu mesmo deixaste.  
Mesmo que te ame,  
o chão é duro,  
e o vermelho é a cor  
da dor que se acumula,  
como folhas secas,  
no inverno do nosso amor.  

Cada passo teu,  
é um peso a mais,  
que afunda a pele  
e o meu coração,  
como se a terra  
fosse uma prisão,  
onde eu, já frágil,  
me deito,  
e espero por um alívio  
que não chega.  

Pára, porque a tua ausência  
é um punhal,  
que se volta contra mim,  
e eu, no chão,  
perdida e em pedaços,  
tento juntar o que resta,  
mas cada pedaço,  
cada gota de vermelho,  
é uma cicatriz  
que não sara.  

Teu olhar não toca  
a dor que me consome,  
e eu me vejo  
como uma mancha  
no meio de sombras,  
um grito abafado  
que se dissolve na dor,  
e a ilusão de um amor  
que poderia salvar,  
se torna um desespero.  

Pára, porque o amor  
não é suficiente  
para cobrir as feridas,  
e eu, aqui no chão,  
ainda espero  
uma visão que me veja,  
um toque que possa  
remendar o que se perdeu,  
entre nós.

Mulher e mar


Eu sinto a areia fria nos pés,  
o mar à minha frente respira,  
chama-me com a voz de quem sabe  
que eu pertenço a estas águas.  

Não espero,  
não preciso do consentimento da praia,  
há em mim uma urgência que arde,  
que não se acalma em terra firme.  

Vou sem medo,  
deixo para trás as correntes que prendem,  
as correntes que dizem o que devo,  
como devo,  
mas eu sei o que quero.  

O mar não exige explicações,  
aceita-me como sou,  
com as minhas falhas,  
com os meus sonhos que voam  
em direções diferentes.  

Eu entro,  
sinto o frio que desperta,  
e cada onda é um abraço que me recebe,  
que me diz que posso ser,  
posso simplesmente ser,  
sem máscaras, sem máscaras.  

As mulheres que vieram antes de mim  
estão aqui,  
sinto-as na espuma que dança,  
na força das marés que me guiam,  
e eu sou uma delas,  
sou todas elas,  
sou mulher e mar,  
livre,  
indomável,  
inteira.

(Inspirado no livro "Mulheres que não esperam na praia e querem ir para o mar" de Marta Pais Oliveira)

Estou aqui


Fala comigo, meu amor,  
quero ouvir as ondas que escondes,  
o murmúrio das tuas noites caladas,  
onde o silêncio e a lua se abraçam.  

Deixa-me tocar as tuas sombras,  
as que dançam nas margens da tua alma,  
diz-me dos teus medos, teus abismos,  
tudo o que guardas como segredo.  

Sou um porto para as tuas marés,  
um rio onde podes desaguar,  
traz o teu fardo, teus sonhos esquecidos,  
compartilha o que te pesa e o que flutua.  

Seja a dor ou o riso, eu ouço,  
tu és o som que eu procuro,  
as palavras que nunca me disseste,  
no teu olhar perdido em estrelas.  

Fala, meu amor, eu te espero,  
sou a melodia que te acolhe.

De coração ao alto


Caminho, sempre,  
Com o peito erguido,  
Como quem carrega sonhos nas pontas dos dedos,  
E os deixa flutuar para além do céu,  
Onde o horizonte se perde em promessas,  
Que só o vento sabe sussurrar.

O sol desenha sombras nos meus passos,  
E cada curva da estrada é um suspiro,  
Uma prece ao desconhecido,  
Que me abraça em seu silêncio,  
Enquanto sigo,  
Sigo como quem dança na chuva,  
Na espera do arco-íris que ainda não vi,  
Mas sinto,  
Sinto nas veias,  
Como uma melodia que ainda não nasceu,  
Mas já me embala o coração,  
Neste caminho,  
Onde cada passo é um verso inacabado.

Aprisionado


Queria apenas poder querer
Que a vida fosse vida
E eu nunca a tivesse provado 
Que a noite iluminasse o día 
E eu não conhecesse o sol 
Que a areia beijasse o mar 
E meus lábios fossem nuvens 
Que a chuva caísse no céu 
E eu me afogasse no deserto 

 
Que os ríos nascessem no mar 
E eu vivesse em Plutão 
Que o vento norte soprasse de sul 
Que a morte revivesse a vida 
E eu estivesse de costas
E eu morasse a leste
Que o gelo derretesse a lava 
E eu fosse um fóssil
Que o amor iluminasse o mundo
E eu não estivesse lá


Que o ser derrotasse o ter
E eu nunca o sentisse
E eu conhecesse apenas o vazio 
Que o desespero vencesse a tristeza
Que as lágrimas fossem de açúcar
E eu desconhecesse o sabor 
Que o abraço nunca abrisse mão 
E meu corpo fosse fumo


Que o brilho do teu olhar fosse eterno
E eu nascesse cego
Que a bondade mandasse no mundo 
E meu coração fosse de chumbo
Que o fim fosse o princípio
E eu vivesse sempre no meio 
Que o nada fosse mais que o tudo 
E a liberdade prendendo-me
me fizesse livre.