Escombros


Este terramoto que me desmoronou,  
despiu-me da terra, dos sonhos.  
E o tsunami que me encharcou,  
arrasou meu peito, o chão.  

Eu era um castelo de cartas,  
desfeito em poeira e maré,  
as ondas trouxeram segredos  
que eu não queria saber.  

Em cada tremor, um sussurro,  
um fragmento de mim mesmo,  
e a água, como um beijo,  
engoliu a esperança.  

Nos escombros, procuro luz,  
uma fresta, um fio de dia,  
entre ruínas e silêncios,  
onde o novo pode nascer.

No mesmo olhar


Na perda, encontrei-te risonho,  
no rosto a dança de uma manhã clara,  
e no meu peito, a sombra de uma nuvem,  
tranquila, abraçou-me em seu afago.

O que eras em mim desfez-se na bruma,  
mas vi-te seguir, leve como a brisa,  
enquanto o meu silêncio se fez canto.  
Em cada lágrima, um rio sem pressa.

Na tua ausência, descobri-me sereno,  
pois há uma paz que nasce na saudade,  
onde a dor já não fere, só murmura.  
O céu, antes pesado, abriu-se em luz.

E na tua alegria, eu renasci,  
perdi-me para te ver voar,  
e na solidão, achei um novo sol,  
que não queima, apenas acaricia.

Entre o que fui e o que sou,  
há um fio que une, suave,  
a tristeza e a paz, no mesmo olhar.

Uma parte de mim


Uma parte de mim morreu, e a outra parte está morrendo.

A sombra da manhã que não chega, arrasta a luz
como se o tempo fosse areia, correndo sem olhar.
Em cada passo, um vestígio do que fui
se dissolve na névoa, enquanto a noite se dissolve em mim.

Os sussurros do passado tornam-se gritos de um presente
que não sei mais reconhecer; 
ouço os ecos de um coração que não é mais meu
responder ao vazio que se arrasta, 
tenso e cruel.

A dor, essa velha amiga, não se despede,
não há consolo no fim de um dia que não começou,
e a outra parte de mim, a que resta, continua a cair
como folhas secas em um vento que não pode parar.

A esperança se esconde, 
tímida, atrás dos muros da minha mente
e cada pensamento, cada lembrança,
é uma maré que arrasta um pouco mais de mim.

Os sonhos, aqueles espelhos distantes,
quebram-se em fragmentos que não posso juntar.
A tristeza se torna uma parte de minha pele,
uma segunda natureza, um corpo que nunca posso abandonar.

Sigo, com uma parte de mim já enterrada
e a outra parte, lentamente se afundando,
em um mar de incertezas que beira o infinito,
onde não há respostas, apenas o silêncio.

A morte, que se esconde em cada esquina,
não me oferece paz, apenas o peso da ausência.
E eu, uma sombra do que fui, continuo a vagar,
perdido entre os restos de um ser que foi e do que está morrendo.

Só tu e o mar


Tu és o riso à beira-mar,  
com os pés afundados na areia,  
e o vento no teu cabelo,  
desalinhado,  
como a vida que sonhas.  

E tu caminhas,  
sempre caminhas,  
no horizonte de ti mesmo,  
onde o sol se perde,  
como as palavras que não dizes,  
mas que sentes.  

E há uma liberdade,  
tão tua,  
naquele instante de sorriso,  
onde o mundo se dissolve,  
e tu és só tu,  
e o mar.

Beijo fresco


Quero um beijo fresco,  
neste vazio que me queima,  
onde o ar sufoca,  
e a saudade me consome.  
A noite é densa,  
silêncio que se enrola,  
entre o calor da ausência  
e o frio da tua falta.  
Tudo é sombra  
dentro deste peito,  
e o desejo se contorce,  
como serpente em silêncio,  
à espera de um toque,  
de um suspiro,  
de um momento que traga alívio.  
Mas há só o vazio,  
o vazio que me queima,  
e eu só quero um beijo fresco.