Quem eu sou



Carrego o peso da saudade,  
na pele que pede um toque,  
nas noites que se estendem,  
como um silêncio prolongado.  

Tenho medos escondidos em sombras,  
que dançam nas paredes brancas,  
e me lembram de tudo,  
que não sei dizer em voz.  

Sou feito de mar e terra,  
de sonhos que se afogam,  
e ressurgem com a maré,  
em ondas que nunca cessam.  

Desejo a simplicidade do abraço,  
o calor de um corpo próximo,  
a verdade que os olhos,  
revelam sem precisar de palavras.  

Amo com a força de um raio,  
mas também com a calma,  
de quem já viu o mundo,  
e sabe que tudo passa.  

Sinto dores que não cicatrizam,  
alegrias que florescem breves,  
como flores num campo,  
onde o sol toca e parte.  

Tenho vontades de ser vento,  
de correr sem rumo certo,  
de voar para longe,  
e voltar quando for preciso.  

No fundo, sou apenas eu,  
uma alma que busca paz,  
nas coisas mais pequenas,  
e nos gestos mais verdadeiros.  

Já não é

Faço amor de alma vazia,  
o corpo sem um eco de calor,  
encontro-te na noite que geme,  
entre silêncios e olhares nulos.

Teu toque é um vazio antigo,  
como a sombra de um passado,  
nossos corpos dançam sem ritmo,  
na ausência do desejo pleno.

Acaricio-te com mãos cansadas,  
onde o amor se desfez, desmoronou,  
e a cada suspiro, uma tristeza,  
uma memória que nunca se preenche.

A alma clama por algo mais,  
mas o silêncio é o único amante,  
te amo, mas sinto a frieza,  
neste abraço que não é abraço.

Ecos do nada

Um dia ela deixou de estar,
E eu morri, lentamente, morri.
As palavras caíram como vidro,
E o silêncio feriu meu peito.

Os dias eram sombras vazias,
E as noites, abismos sem fim.
Procurei-a nos cantos escuros,
Encontrei só ecos do nada.

Cada riso guardava uma dor,
Cada lembrança, um espinho cruel.
O vazio encheu meus olhos,
E o mundo perdeu sua cor.

Caminhei pelas ruas, só,
Desencontrada de mim mesma,
A tua ausência era tudo,
E eu, nada mais que pó.

O tempo passou, mas não curou,
Cada momento, ferida aberta.
A vida seguiu, mas sem alma,
E eu, fantasma de mim.

Um dia ela deixou de estar,
E eu morri, para sempre morri.
Nos braços da saudade, vaguei,
Perdida na eternidade sem fim.

A carta

Tu és a carta que enviei
no vento, sem selo, sem destino,
e flutuaste, leve, no ar
como segredo, sem fim.

Envolveste o tempo e o espaço,
atravessaste nuvens e mares,
e em cada dobra de ti
guardei um suspiro e um verso.

Tu és a carta que sussurra
aos pássaros e às estrelas,
um eco doce e distante,
perdido, porém encontrado.

És o toque da brisa,
um murmúrio na madrugada,
a promessa na noite,
que o vento levará.

Vestido azul e amarelo

Ela vestiu o vestido azul e amarelo,
e o mundo parou para olhar.
Cada passo teu, arte em movimento,
pinceladas vivas no ar.

Nas tuas curvas, o sol se dobra,
o céu se espalha em teu rastro.
E as cores, num doce abraço,
cantam segredos do teu encanto.

O mar inveja o teu azul,
o girassol deseja teu amarelo.
Entre o brilho e o suave toque,
floresces, pura e bela aquarela.

Com o vestido, tu reinventas o dia,
e as sombras se rendem à luz.
No teu caminhar, surge a magia,
o universo inteiro se traduz.