Decisão

@Pedro Peres


a alvorada de uma mudança 
se aproxima encolhida na dor, 
na ansiedade contida da esperança 
afasto a decisão no torpor 
de querer sem ir, voltar a mim, 
de novo, dono de meus passos.
@Pedro Peres

As Árvores


Olhei pela janela e não vos encontrei,
as lágrimas voltaram teimosamente
ao sentir-vos violada, rasgada e enfim decepada.

Queria ser chuva e te lavar a alma ferida.
Queria ser terra e te alimentar o corpo que busca o sol.
Queria ser vento e te fazer dançar a madrugada.
Queria ser abraço destes braços feitos ramos verdejantes.
Queria ser homem e amar teu corpo de mulher até ao fim dos tempos.
Queria te prometer que não há maldade no mundo.
Queria ser querubim e te segredar baixinho carícias.

Sonho teu perfil tão vibrante de vida que regozijo
mas hoje os pássaros não virão mais me embalar com seu chilrear,
a noite se esvai no céu com a madrugada reclamando a luz a meus olhos cansados,
vou recebe-la com o coração aberto pedindo-lhe um desejo:
semente de árvore, dá-me a esperança de te voltar a ver sorrir,
e ao entardecer leva-me ao arco-íris dançar.

Tempestade de Ser

A inspiração da tempestade de ontem. Clique na foto para ver o vídeo

a alma hoje é uma gaivota,
sou a asa de um albatroz
dançando com as vagas em alto mar
e no aroma profundo de maresia
minha alma gargalha
brincando com os golfinhos
na tempestade se revigora
na espuma salgada de mar se banha
e no frio vento do norte se reconforta
hoje sou Pedro em toda a sua imensidão
os horizontes são minhas partidas
e os amigos minha chegada,
na plenitude do ser...
Sou.

Singelo Clamor

só tu sabes dor como és solidão
mácula de alma
nem quando gritas se ouve teu coração
no ferro negro em pele brasa

vida ausente --
Quem és?
passado que se deseja esquecer
do que apenas foste
e o futuro que não sentes
não queres voltar a ser
-- sem presente

quando o sono se faz breve conforto
e o acordar o esgar do horror
de todos os males que são meus
na plenitude de todo o fervor
anseio que sejam nunca teus

NESTE ÚLTIMO DIA DE ABRIL... POEMA...

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada

(Sophia de Mello Breyner Andresen in Poema)