Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua… Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso.
E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua…) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua… E, quando chega esse dia, o outro desapareceu… (Cecília Meireles)
sobre o veludo da tua morte o atrito do corpo é a dolente barca onde o dia quase não passa, pelo mar dentro o céu a estalar
se à morte tudo sobeja, sobejo de sentir o outono
o livro oblitera as palavras e silencia-me. deitar-me-ei, o sol a pesar o meu corpo e tu, todo o tamanho do mundo, calado, morto, vasta extensão que aprenderei a percorrer
existe uma arritmia ténue no coração de quem perdeu o amor de outrem, um coração ténue que se sobrepõe ao que já se tem
eu deixei a luz em dias como este, conheço o olhar sem imagens dentro, sei do frio quando lento se caminha a rua, quando nada difere do que a alma sente, esse fim do amor na respiração que recua
e sei o porquê desta ansiedade ao virar a página ainda que ninguém seja passível de se esconder entre as folhas de um livro
a morte não me assusta, hei-de voar-lhe no céu da boca assim que se prepare para me engolir
e resgato os pássaros enquanto as árvores chilreiam e defino o vento pela sua mecânica
critico-os, de que adianta ser pássaro quando não se tira os olhos do chão
por isso persigo o pôr do sol, janelas abertas, e vacilo
lágrima, pavio de água que acabo de acender, arde, onde por fim parto