Morte
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…
(Cecília Meireles)
valter hugo mãe (i)
o desgoverno dos sonhos
ao luís miguel nava
já não te aguardo,
adio-me
sobre o veludo da tua
morte o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar
se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono
o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer
existe uma arritmia ténue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem
eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que
recua
e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro
a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir
e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica
critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão
por isso persigo o pôr do sol,
janelas abertas, e
vacilo
lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto
já tu me esperas,
abrevias-me
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| valter hugo mãe por pat |
contabilidade
poesia 1996-2010
valter hugo mãe
alfaguara
www.valterhugomae.com
Sophia - poesis i, ii
Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.
ATLÂNTICO
Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.
Sophia de Mello Breyner Andresen - 1919-2004
OBRA POÉTICA - Caminho
Os Deuses de Pedra #6
Depois
o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo
o roçar urgente do joelho
e
o ventre mais à frente na maré.
É
a onda do ombro que se instala.
É
a linha do dorso que se inscreve.
A
mão agora impõe, já não embala
mas
o beijo é carícia, de tão leve.
O
corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A
boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já
não há gesto que se não invente,
ímpeto
que não ache um abandono.
Então
já a maré subiu de vez.
É
todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados
de amor e de nudez
somos
a maré alta de quem ama.
Por
fim o sono calmo, que não é
senão
ternura, intimidade, enleio:
o
meu pé descansado no teu pé,
a
tua mão dormindo no meu seio.
Rosa Lobato de Faria
Poemas Escolhidos e
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