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"A Cortina da Enfermeira Lugton" - Virginia Woolf



Congelado no padrão de uma cortina da sala, um mundo de sonhos espera pacientemente enquanto a enfermeira Lugton costura. Enquanto ela cochila à luz do lampião, os animais que decoram o padrão da cortina, vão despertando lentamente, fazendo o seu caminho em direcção a um lago brilhante e a uma cidade mágica. Esta história maravilhosa de Virginia Woolf foi encontrada entre as páginas do manuscrito de sua Sra. Dalloway. As ilustrações da gloriosa Julie Vivas trazem às palavras de Virginia Woolf vida para criar um volume mágico que vai encantar crianças e adultos.


A Cortina da Enfermeira Lugton
Virginia Woolf
Tradução do espanhol por Pedro Peres


A enfermeira Lugton estava dormindo. Tinha acabado de dar um grande ronco. Deixando tombar a cabeça, colocou os óculos na testa, e lá estava ela, sentada ao lado da lareira, com um dedo levantado e um dedal nele enfiado, a agulha com fios de algodão pendurados. Estava ela roncando e roncando, e nos seus joelhos, cobrindo completamente o avental, tinha um pedaço grande de tecido azul estampado com pequenas figuras. Os animais do padrão do tecido não se mexeram até que a enfermeira Lugton roncou pela quinta vez. Um, dois, três, quatro, cinco... Ah, a velha dormia finalmente. O antílope cumprimentou a zebra com um aceno de cabeça, a girafa mordeu uma folha da árvore, todos eles começaram a se agitar e contorcer, no padrão do tecido azul havia rebanhos de animais selvagens, e mais além um lago e uma ponte, uma aldeia de casas redondas, onde homens e mulheres espreitando pelas janelas viam o dorso de um cavalo a cavalgar sobre a ponte. Mas, enquanto a velha enfermeira roncava pela quinta vez, o tecido fez-se céu azul, as árvores balançaram-se, ouvia-se o ondular da água no lago, ao atravessar a ponte via-se as pessoas acenarem com as mãos das janelas. Os animais então puseram-se em marcha. Primeiro veio o elefante e a zebra, depois a girafa e o tigre, e mais tarde a avestruz e o mandril, doze marmotas e um grupo de suricatas, os pinguins e os pelicanos avançavam atropelando-se dando bicadas uns aos outros. O dedal dourado da enfermeira Lugton iluminava-os como um sol, e quando a enfermeira Lugton roncou de novo, os animais ouviram o barulho do vento através da floresta. Desceram para beber e enquanto andavam, a cortina azul (sim, porque a enfermeira Lugton estava fazendo uma cortina para a sala da esposa de John Jasper Gingham) transformou-se em relva cobrindo-se de rosas e margaridas, salpicada de pedras brancas e negras, de pequenas poças e de rodados dos carros, e as rãs saltavam nervosamente escapando dos pés dos Elefantes. E assim lá iam eles, colina abaixo, beber ao lago, onde logo se reuniram todos na margem, enquanto uns baixavam a cabeça e outros a levantavam. Mas que visão tão bonita... E pensar que todos eles repousavam sobre os joelhos da velha enfermeira Lugton, durante seu sono, na sua cadeira Windsor, sentada à luz do lampião, pensar em seu avental coberto de rosas e relva, pisado por todos aqueles animais selvagens, sabendo que a enfermeira Lugton morria de medo por colocar a ponta do guarda-chuva em qualquer jaula do jardim zoológico! Era suficiente apenas um pequeno besouro preto para que a enfermeira Lugton desse logo um salto! Mas nesse momento dormia, não viu nada. Os elefantes bebiam, as girafas mordiscavam as folhas mais altas e tenras e as pessoas que atravessavam as pontes lançavam bananas, atiravam frutos pelo ar, bonitos barris dourados cheios de marmelos e pétalas de rosa, fazendo o deleite dos macacos. A velha Rainha passou no seu palanquim, assim como o general do Exército e do Primeiro-Ministro, do Almirante, do carrasco e dos dignitários que visitavam a cidade, um belo lugar chamado de Millamarchmantopolis. Aos maravilhosos animais nada os incomodava, muitas pessoas sentiam pena deles, era bem conhecida que até o mais pequeno dos macacos estava enfeitiçado. A grande Ogra forçava-os a trabalhar incansavelmente, as pessoas sabiam. A grande Ogra chamava-se enfermeira Lugton. Eles a viam das janelas, alta como uma torre, com o rosto como a encosta de uma montanha, com grandes penhascos e avalanches, poços no lugar dos olhos, nariz, cabelo e dentes. Congelava vivo todos os animais que se atrevessem a entrar em seu território, obrigando-os a passar o dia colados aos seus joelhos, mas quando adormecia, os animais recuperavam a liberdade, ficavam soltos, e ao entardecer desciam até Millamarchmantopolis para beber no lago. De repente, a velha enfermeira Lugton enrugou a cortina. O zumbido de uma grande mosca varejeira azul que voava em torno do lampião tinha-a despertado. Ela se sentou em sua cadeira e segurou na agulha. Os animais tombaram instantaneamente. O ar tornou-se um tecido azul. A cortina ainda estava em seus joelhos. A enfermeira Lugton pegou na agulha e continuou a costurar a cortina para a sala da senhora Gingham.