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Para ti - de Mia Couto



Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti
criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre


Para ti
dei voz, às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo
estava em nós


Nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos,
simplesmente porque
era noite
e não dormíamos.


Eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos,
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida.


Mia Couto - (poeta moçambicano)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mia_Couto

Gonçalo Salgueiro - Grito (Amália Rodrigues)



Silêncio!
Do silêncio faço um grito
O corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco.

De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido.

Ao céu!
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.

E eu,
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora.

Solidão!
Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura.

Ai, solidão
Quem fora escorpião
Ai! solidão
E se mordera a cabeça!

Adeus
Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede.

Adeus,
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura.


Letra: Amália Rodrigues
Música Carlos Gonçalves

Mãos de Anjo - Maria Teresa Horta



Passa as tuas mãos
de anjo
na minha nuca assombrada
Entreabre as minhas
pernas
e tira a folha da parra
Encontra o poço do mel
com a abelha
dos teus lábios
Perde na mata
os teus dedos
deixa a língua arrebatada



Maria Teresa Horta página oficial no facebook. As Palavras do Corpo (Antologia de Poesia Erótica). 1. ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote. 2012.
[Inéditos] p. 286.

video

Bicho do Mato



sou bicho do mato

escravo do meu próprio corpo

que no tronco     no sangue seco

de chibata gasta e molhada

rasga a pele     a carne da minha alma





e tudo o mundo rindo     rindo     rindo

mas bem lá no fundo

lá no fundo      da loucura onde moro

eu bem sei      é de mim que eu estou rindo