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Bicho do Mato



sou bicho do mato

escravo do meu próprio corpo

que no tronco     no sangue seco

de chibata gasta e molhada

rasga a pele     a carne da minha alma





e tudo o mundo rindo     rindo     rindo

mas bem lá no fundo

lá no fundo      da loucura onde moro

eu bem sei      é de mim que eu estou rindo





pedido de Natal




Onde está o farol      bruxuleante
nesta longa noite fria e nevoenta
que dos insidiosos escolhos nos aparte
e onde o caminhar sempre incerto     brilhe

Majestosa


"Sentir é criar. Sentir é pensar sem ideias,
e por isso sentir é compreender,
visto que o universo não tem ideias.
" Fernando Pessoa

majestosa,
com olhos de tempestade
raiando-me de prazeres    infindos
de fantasias douradas    de mil desejos
nos despertares vigorosos de uma cascata
na florida cama do teu perfumado corpo
inebriando-me    loucamente
deixando-me rendido    entregue    escravo
diluído no teu harmónico latejar
assim me deixas     assim te encontro     assim me fico
perdidamente em ti

Manuel Bandeira - Arte de amar

Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Bandeira, Manuel. Belo Belo. 1948
"literatura em foco" - para entender além do sentir.

. final

Soube-me tão bem sentir-vos por perto
Obrigado por todo o carinho que nunca soube agradecer

Haicai

Pilrito-das-praias, a photo by Maria Rego on Flickr. 




Definições de Poesia:
infinitas tentativas,
muitas vezes belas,  
mas sempre falhadas.

Morte


Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

(Cecília Meireles)

valter hugo mãe (i)


o desgoverno dos sonhos
ao luís miguel nava




já não te aguardo,
adio-me


sobre o veludo da tua
morte o atrito do
corpo é a dolente barca onde
o dia quase não passa, pelo mar dentro
o céu a estalar


se à morte tudo sobeja,
sobejo de sentir o outono


o livro oblitera as
palavras e silencia-me.
deitar-me-ei, o sol a pesar o
meu corpo e tu, todo o
tamanho do mundo, calado, morto,
vasta extensão
que aprenderei a percorrer


existe uma arritmia ténue
no coração de quem perdeu
o amor de outrem, um coração
ténue que se sobrepõe ao que
já se tem


eu deixei a luz em
dias como este, conheço o
olhar sem imagens dentro,
sei do frio quando lento
se caminha a rua, quando nada
difere do que a alma
sente, esse fim do
amor na respiração que
recua


e sei o porquê desta ansiedade ao
virar a página
ainda que ninguém seja passível de se
esconder entre as
folhas de um livro


a morte não me
assusta, hei-de voar-lhe
no céu da boca
assim que se prepare para
me engolir


e resgato os pássaros
enquanto as árvores
chilreiam e defino o vento pela
sua mecânica


critico-os, de que adianta ser pássaro
quando não se tira os olhos do chão


por isso persigo o pôr do sol,
janelas abertas, e
vacilo


lágrima, pavio de
água que acabo de
acender, arde, onde
por fim parto


já tu me esperas,
abrevias-me

valter hugo mãe por pat

contabilidade
poesia 1996-2010
valter hugo mãe
alfaguara
www.valterhugomae.com

Sophia - poesis i, ii



Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?


A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.


A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.




ATLÂNTICO


Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.










Sophia de Mello Breyner Andresen - 1919-2004
OBRA POÉTICA - Caminho



Os Deuses de Pedra #6

Foto de Andre Cameron


Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé - o meu - sobre o teu pé.
Logo o roçar urgente do joelho
e o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente,
ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
senão ternura, intimidade, enleio:
o meu pé descansado no teu pé,
a tua mão dormindo no meu seio.

Rosa Lobato de Faria
Poemas Escolhidos e Dispersos