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Delirando

imagem do Jornal de Letras (JL)
"O maior poeta não é o que escreve versos mas o que dá aos seus actos o alcance e o valor de um poema." - Álvaro de Campos


FERNANDO PESSOA 'DESAPOSSADO' DE UM SUB-HETERÓNIMO
Artigo de Teresa Rita Lopes . Seis poemas inéditos de José Coelho Pacheco.


Trechos do artigo de Teresa Rita Lopes no Jornal de Letras (JL) nº1058 pág.10-11 de 20.4 a 3.5 de 2011. Jornal de Letras (JL) :

"O seu a seu dono - Pessoa 'desapossado' de Coelho Pacheco"

"Coelho Pacheco é, neste texto, como em 'Para Além d'Outro Oceano', discípulo simultaneamente de Caeiro e de Campos pelo uso do verso livre, incomum na época, e pela destruição da fronteira entre poesia e a prosa. E é nisto que ele e os seus mestres em Modernismo, Caeiro e Campos, são verdadeiramente inovadores."

"'A ideia que tenho de espaço', é um monólogo de quem pensa em voz alta, sem rédea do bom senso e da gramática, lembrando Alberto Caeiro, que rejeita 'o corredor que vai do pensamento para as palavras', mas, ao mesmo tempo, Álvaro de Campos, que caracterizou os seus monólogos como os de 'um parvo que estivesse com febre'."


Delirando (10.3.1914)

Como um cadáver frio no mármore gelado
Da mesa numa escola - a imagem não importa -
Hirta e roxa do frio, vejo a minhalma morta
Liberta do meu corpo exangue e macerado...

Vejo-a silente e negra e envolve-a de mistério
Num arrepio da carne - um arrepio que assombra
Um lívido sudário - lívido de sombra -
Na campa vaga dum longínquo cemitério...

E vejo - sim, diviso - um vulto maquilado
Um vulto de histrião, leproso e gangrenado
Dando, num arquejar de todo o corpo seu,

À lividez sangrenta da minhalma um beijo...
(...)
E eu sofro muito...eu sofro muito quando o vejo
Porque esse corpo - horror! - só pode ser o meu.

José de Jesus Coelho Pacheco, (1894-1951)